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O terreiro pop de Rita Ribeiro
A cantora lança ‘Tecnomacumba’, disco que louva as divindades de uma cultura mestiça
Joceval Santana
Foram três anos azeitando o repertório em shows, até que Rita Ribeiro carregou os músicos para o estúdio e gravou Tecnomacumba. Embora ela cante para um verdadeiro panteão, é muito mais do que um disco em louvor às divindades. Não que isso tirasse a força do projeto. Porém, Rita Ribeiro é uma cantora de qualidade vocal singular; em seus três primeiros discos, enfrenta com dignidade a nossa rica musicalidade e mostra o devido respeito tanto à fonte da cultura popular quanto ao seu diálogo com a urbanidade.
Por conta disso, Tecnomacumba tem, antes de tudo, propriedade, e é, antes de tudo, um CD de música brasileira. Uma prova é a nação de autores que participam do álbum: Dorival Caymmi, Nei Lopes, Gilberto Gil, Jorge Benjor, Caetano Veloso e Gerônimo, dentre outros. “Não deu para incluir metade dos compositores que queria, por isso me concentrei nos mais representativos, nos que abordam o tema com mais personalidade”, definiu a cantora do interior do Maranhão e que atualmente mora no Rio de Janeiro.
Através deles, Rita Ribeiro presta uma celebração à cultura mestiça do país, de maneira pulsante, orgânica e dançante. “O disco é a valorização da mistura. O brasileiro precisa ter orgulho do que ele é”, reitera. Para a sua liturgia, a seleção não podia ser mais acertada. De Jorge Benjor, por exemplo, ela escolheu Domingo 23, uma de suas louvações a São Jorge, Ogum no sincretismo religioso. É uma das faixas na qual sua voz limpa está mais quente, o que confere um sabor especial ao coloquialismo de Benjor. “São Jorge é tão presente... eu quis dar essa impressão no meu estilo de cantar. Você se deixa levar pela música, é quase um cavalo”, concorda ela, usando o vocabulário dos terreiros de candomblé.
De Caetano, entrou a beleza terna de Oração ao tempo e o magnetismo de Iansã, feita em parceria com Gil, que também participa da lista com Babá alapalá, uma celebração a Xangô gravada por Zezé Motta na década de 1970. Novamente, Rita faz bonito. No repertório de Caymmi, que compôs as mais doces canções ligadas ao mar, a cantora pescou Rainha do mar para saudar Iemanjá (“minha sereia é moça bonita/ nas ondas do mar/ aonde ela habita”).
Nei Lopes, outro mestre, entrou com Coisa da antiga (parceria com Wilson Moreira), que não fala do universo simbólico de um orixá especificamente, é muito mais uma celebração à ancestralidade. É interessante notar que Coisa da antiga (“Na tina, vovó lavou, vovó lavou/ a roupa que mamãe vestiu quando foi batizada”) e A deusa dos orixás, de Toninho e Romildo (“Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar”) foram eternizadas por Clara Nunes.
Cantora de luminosidade extraordinária, Clara Nunes morreu precocemente em 1983, não sem antes deixar registrada a sua devoção aos cultos afro-brasileiros. “Ela foi uma guerreira, era de santo mesmo e sempre foi uma grande referência. Seria estranho se ela não estivesse no disco”, justifica Rita.
Domínio público – As saudações prosseguem a Oxóssi (Cavaleiro de Aruanda, de Tony Osanah), Oxum (É d’Oxum, de Gerônimo e Vevé Calazans), Cosme e Damião (Cocada, de Antônio Vieira) e à Cabocla Jurema (Jurema, de domínio público). Tecnomacumba começa com um saudação às diversas divindades e termina, claro, com Canto para Oxalá. As duas faixas também são de domínio público, bem com os pontos de macumba que intercalam todo o disco – todos adaptados por Rita Ribeiro: “A idéia era fazer só com pontos de macumba, mas talvez ficasse muito hermético”, revelou a cantora em entrevista por telefone.
É uma preocupação que ilustra bem a distância que ela quer manter dos rótulos. O nome do CD, por exemplo, não deve ser associado à música tecno, ou eletrônica. O prefixo de Tecnomacumba viria de tecnologia, como um conjunto de princípios que se aplicam ou regem um determinado campo de conhecimento, no caso, a umbanda. Há sim, no disco, um acento eletrônico (com programação de nomes como Luiz Brasil, que também assina boa parte dos arranjos, e Ramiro Musotto), mas dentro de uma sonoridade pop, a exemplo de Tambor de crioula (Junior e Oberdan Oliveira), “que representa a festa profana depois da reza”, pontua Rita.
Outro possível mal-entendido que ela faz questão de desfazer é que não pretende levantar bandeira religiosa. “Não corto um bode no palco. Eu bato minha cabeça é para a música”, sentencia. “Eu sempre me identifiquei com os cultos de origem africana, por causa da música, da relação com a natureza. Me apropriei com todo respeito desses terreiros ricos em musicalidade, em cena, em ritmo. Queria um show e disco nos quais a música e a dança fossem catalizadores dessa energia, para dançar e cantar junto, curtir, como nos terreiros”.
Rita se diz “macumbeira na pesquisa” musical, tanto que Jurema e Cocada já haviam sido gravadas por ela anteriormente, e o acento percussivo aparece com maior ou menor ênfase nos seus discos Rita Ribeiro (1997), Pérola aos povos (1999) e Contigo (2001). “Mas quem não reza para Santa Rita e toma um banho de mar para Iemanjá?”, brinca, para em seguida observar: “Tudo ficou muito proibido, pecaminoso. A gente tem que descobrir os deuses em nós mesmos. Nessa fase de intolerância religiosa, vamos cantar para todos os deuses em comunhão”.
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